Todo mundo planta sonhos

Quando eu era pequeninha plantava sonhos, regava o solo do coração com emoções fresquinhas, guardava raios de sol em uma pequena caixinha, para usar sempre que necessário. Passava horas em meus canteiros imaginários, cantarolando animada. Diziam que eu tinha a quietude na alma. Sempre sossegada, lendo um livro. Acho que eu me economizava, sabia que um dia seria preciso manter os pés de esperança bem cuidados e descansados.
Fui crescendo e descobrindo minha alma em festa, não sei mais ver a vida atrás das cortinas, ainda gosto do sossego, mas preciso da vida bagunçando meus cabelos.
Todo mundo é malabarista da vida, e tem um buraquinho na fechadura do tempo para dar uma espiadinha em como era lá atrás, para ver se continua o mesmo ou se mudou pra caramba.
Todo mundo é feito de gavetas, lembranças, vestígios de infância, peças usadas, dobradas, perfumadas, bagunçadas, profundas, escuras, trancadas.
Todo mundo é assim, e todo mundo planta sonhos.
Não vejo os meus se realizando tão fáceis não, mas vejo novos surgindo a cada dia. Alguns leves, alvos e brandos. E, de vez em quando, consigo fazer meu coração voltar a não ter pressa, viver em harmonia com a alma, fazer as pazes com a alegria.
Não é preciso que tudo esteja dobrado, organizado, devidamente etiquetado, nem todos os sonhos realizados para que possamos ser felizes.
É possível encontrar pérolas de felicidade em meio a nossa bagunça emocional.
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E Cadê a leveza da vida?

leveza

Que atire a primeira pedra quem nunca acordou numa manhã atravessado, cansado do dia que mal começou, questionando as escolhas de ontem: porque comi tanto? Não deveria ter ido àquele happy hour que varou madrugada a dentro. Céus, porque falei tão mal do meu colega de trabalho para o chefe?
Leveza é conquista da maturidade. Nada tem a ver com idade, conheço quem é leve jovem e quem não consegue ser mesmo depois de velho. Leveza é difícil demais de ser mantida. Um dia se está leve, no outro nem tanto. E assim seguimos, preocupados em ganhar dinheiro, encasquetados com questões irrespondíveis, tentando controlar aquilo que é alçada do destino apenas. Julgando-nos superpoderosos, detentores de uma sabedoria particular, só nossa. Levando nas costas uma mochila cheia de planos, defendendo com vigor nossas escolhas. Perdendo-nos de nós mesmos, principalmente, da maravilhosa leveza da vida.
Não existe crítico mais poderoso do que a consciência, o primeiro dever dessa danadinha deveria ser desconfiar de si mesma. Despir-se da armadura pesada que atrapalha mais do que protege. Baixar o dedo apontado na cara do erro do outro, como se ela mesma nunca errasse. O que é errado? Alguém sabe, de fato?
Bobagem, a vida é metade o que escolhemos e metade o que não escolhemos: a parte que se impôs sem chance de negociação. Temos que vivê-la também. Nem tudo se consegue planejar.
Só acho, é claro, que não existe chumbo mais grosso que uma consciência pesada. E todo peso tem, ao menos, duas medidas. Qual é a certa?
Nenhuma. Ou todas. Cada um sabe de si.
#meudiáriodegratidão

Dia dos pais

– Mãe, aprendi a falar papai em inglês.
– É mesmo Alfredo?
– Sim, é daddy.
 
Espero em silêncio para ver se vem algo mais depois dessa descoberta. Você anda descobrindo tanta coisa, filho.
Pelo retrovisor te vejo treinando, mudo:
– Papai – Daddy. Daddy – Papai.
 
Passados alguns minutos, você solta uma de suas pérolas:
– Se a gente construísse uma máquina do tempo, eu ia poder encontrar meu pai, né, mãe?
 
Coração apertado de mãe, respondo:
– Ia sim, filho. Mas quer saber de uma coisa? Guarde bem seus desejos, aquilo com o qual a gente sonha não se perde, o tempo cuida dos nossos sonhos até o momento certo de realizá-los.

A gente se perde

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A gente se perde aos pouquinhos, se afastando de amizades verdadeiras, de amores que partem, de abraços apertados, de carinho de gente que te conhece de verdade. Acredite em mim, Alfredo, a gente se perde assim. Mas quando faz o caminho de volta, percebe que seu cantinho estava guardado na vida de cada um, que os braços continuavam estendidos, o colo pronto, o riso fácil e a casa segura. A gente se perde pra descobrir que, o que é verdadeiramente nosso está sempre nos esperando.
O que realmente importa e fica, é o que mais deixamos passar despercebido. A gente complica a simplicidade e vai ver ver a beleza do momento depois que passou. É difícil aprender a valorizar o que se tem, se presentear com um “presente” menos apressado, com um agora mais bonito. É difícil eternizar o outro, nós e o que se passa, pois quase nunca temos a atenção focada no que está acontecendo. Precisamos aprender a ser colecionadores de miniaturas, as miudezas se aconchegam melhor na memória. São elas que penduramos na parede do tempo e corremos pra ver quando “desaprendemos” a sorrir. Pequenos milagres que nos acontecem em um dia de grandes desafios. Abraço amigo, presente de irmão, coleção de vinil, raspa do angu da mamãe, anjo com cara lambuzada de picolé, lembranças fotografadas, bagunça de casa, coisinhas pequenas, de todos os dias, mas que fazem uma falta danada. Essas coisas são a cola que nos consertam quando estamos quebrados. São elas que ficam quando as pessoas partem e os momentos acabam. Quando começamos a guardar essas raridades pequeninas perdemos o medo da vida, descobrimos que lembranças também são companhia.

Sabe o que eu acho, Alfredo? que uma vida feliz é apenas uma sequência de momentos felizes. Mas algumas vezes não permitimos o momento feliz, por vivermos ocupados demais, tentando conseguir uma vida inteira feliz.
Sabe o que eu mais desejo? que você nunca se perca dessa alegria mágica, simples e bonita. Que seja você mesmo, sua própria fonte de felicidade. Que jamais esqueça a beleza ingênua de ver o mundo pelos olhos do Papai do Céu. Que continue sendo movido pelas novidades da vida. Que se sinta livre, sem medo de quebrar a rotina dos dias. Que se lembre o quanto é bom andar com pés descalços, deixando pegadas no vento, sem nenhuma pressa das horas. Que dê as mãos a quem caminha de acordo com a alma, se livrando do peso da matéria, experimentando a leveza de flutuarem num céu de estrelas.
Que você nunca se esqueça que é o menininho mais lindo do MEU mundo.