E o que tem pra hoje?

Mergulhei no baú da memória. Perdi o fôlego de saudade.
Saudade de um café da tarde, fogão a lenha, biscoito de polvilho, doce de leite, nós crianças. E um mundo que não tinha complicação.
No meu ontem, tudo era bonito e sem dificuldade.
Para os medos sempre havia remédio. E tudo se curava com beijinho e colo. Banho quente, chá e bolo. Sempre havia pipoca, riso e histórias bonitas.
As férias eram longas e pressa só existia no dicionário. As tardes se acabavam na amarelinha, ou visitando a casa da boneca da irmã, onde o Biotônico Fontoura era servido como café em xícaras minúsculas.
A hora de dormir era anunciada pelo chamado do seu nome, toda noite havia jogo de queimada ou conversa fiada na rua.
Depois um sono profundo, e o único medo era do bicho papão.
Quando o sol nascia, era possível ver o azul rasgar o horizonte. A gente via sapo chamando chuva e ovo de passarinho caindo do ninho.
Ando revirando meus guardados e desfiando minha memória. Acho que foi lá que aprendi a desobedecer a tristeza. E enfeitar pensamentos com palavras bonitas. Porque o ontem me ensinou que ser feliz é mais fácil, e dá preguiça carregar a angústia quando se tem pressa em alcançar a esperança.
Meu ontem disse, que o melhor era desfazer o fio cinza e triste das lembranças difíceis, e bordar novas e coloridas delicadezas, no Hoje. Que escrever, seria a menor distância que eu encontraria para abraçar quem ficou la trás.
Inclusive eu.

Obs.: Guardo-me na memória, varrendo à piaçava o chão do corredor, contando a mim mesma que era mágica a poeira que flutuava na cortina de luz, feita pelo sol da manhã. Parecia uma boba. Nem imaginava que era só o começo da fértil e solta imaginação.

poeira

Mais amor madame Vida, por favor.

“É preciso sofrer, depois de ter sofrido.”
Pelo Amor de Deus Guimarães Rosa, que constatação penosa. Eu prefiro a segunda parte: “… e amar, e mais amar, depois de ter amado”.
Fico mais aliviada em saber que existe amor depois de qualquer sofrimento.
Conta-se a história de um pobre coração, vítima da madame Vida que decidiu ceder ao capricho da malvada Morte. O coitado do coração fora enterrado vivo em sentimentos argilosos e exposto a tempestade de lágrimas.
Resgatado delicadamente pela Senhora Esperança, fora vigiado dias e noites, até que pudesse ser plantado novamente pela Dona Paz.
Esperança e Paz cultivaram juntas o pobre coração, arrancaram cuidadosamente cada pensamento negativo que insistia em crescer ao seu lado.
Trabalharam o solo, para que pudesse renascer forte.
Quando começou a brotar, fora regado com sorrisos amigos, abraços quentinhos e levado ao sol da manhã, para que ele esquecesse o frio que gela o corpo e endurece a alma, ao qual fora submetido.
O coraçãozinho reerguia-se maduro, fortificado pelas forças do tempo.
Elas cuidavam para que fosse um coração sempre pronto para o que desse e viesse. Humilde, que aceitasse o que a vida lhe impusesse, sem resmungar. Um coração cheio de amor pra dar.
Chegada a hora de florescer, o coraçãozinho lembrara-se do tempo em que fora desfeito em farrapos e lançado na poeira. Verdadeiramente agradecido, prometeu as duas bondosas senhoras que viveria com um sorriso bonito, e sempre mandaria boas vibrações pelo vento.
- “Vou ser doutor de almas”. Declarou o coração.
Tratou logo de enfeitar pensamentos e perfumar poesia. Feito um lírio do campo.

lirio 2

Sobre o que meu coração guardou

E eu nem prestei atenção.
Mas a vida tem um jeito, meio sem jeito, de te obrigar a aprender o que ela precisa te ensinar.
A vida puxa orelha do mal-criado e poe de castigo o rebelde. É preciso escuta-la com ouvidos abertos e boca fechada:
É possível recuperar seu destino, mesmo quando se perde o caminho.
É possível enxergar novas curvas, desenhar novas retas. Mas é preciso deixar pra trás os limites pequenos, porque a estrada é gigante em exigências.
É preciso realizar os sonhos que nascem, senão eles morrem e você nem se deu conta que eram sonhos.
É possível colocar em palavras (algumas vezes, somente nelas) seu toque, seu sentir, seu compreender, seu segredo mais profundo.
Que é valiosa a sua oração sincera e silenciosa, aquela que a alma fala e que só ela ouve e só ela responde.
Que nenhum choro é em vão, e nenhuma dúvida. Mas é preciso não ter medo dos seus próprios medos.
Que se deve adormecer depois das lágrimas, para acordar com o coração cheio de esperanças.
É prova de amor desacelerar seus passos para seguir lado a lado, de mãos dadas com quem mais te importa, ainda que a passos infantis que nao acompanham a corrida frenética do mundo. Você jamais chegará atrasado para o maior encontro de sua vida: o encontro com você mesmo.
É preciso mergulhar na serenidade diante de qualquer turbulência, pois a sabedoria é uma flor de lótus, nasce bonita em águas lodosas.
É possível ser mãe, ser pai, ser filho, ser amigo, ser órfão. É possível ser, basta alimentar sua essência.
É preciso ensinar o pouco que se sabe, e aprender o muito que não se sabe.
É possível enxergar a grandeza do amor nas suas pequenas manifestações.
É preciso ter e sentir um medo bonito de ver a vida, pois é esse medo que te faz reproduzir na alma a vida que entra em seus olhos, em seus ouvidos, e por todos seus poros.
É possível calar qualquer tristeza, se a sua alegria gritar mais alto.
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Para você, João e Ana.

Quando alguém que amamos morre, até que a gente se acostume, a morte se repete infinitas vezes. Quando você acorda no dia seguinte, lá está ela: a morte. A cada lembrança, outra morte. E assim se segue, até que em nós, ela aconteça de fato.
Eu não pensei que sentiria a intensidade dessa dor novamente. Mas ao receber a notícia da partida de Magela, um filme se passou na minha cabeça. Eu só pensei em você Fofy, no seu coração de mãe/mulher/gestante.
Lembrei-me do buraco que se abriu no meu coração, da gargante seca, e do medo que sentia. Lembro que não conseguia chorar, apesar do sentimento de desproteção. Eu sentia dores pelo corpo, e uma vontade que alguém entrasse pela porta e dissesse que era tudo brincadeira. Olhava pra criança frágil no meu colo, e pensava como eu daria conta, eu não podia deixar meu leite secar, meu filho dependia de mim.
Eu precisava ser forte, sabia disso. Mas quanto mais me diziam pra ser forte, mais raiva eu tinha de tudo. Qua raio de força? A vida enfia a faca no seu coração, a ferida latejando, e ainda te pedem pra ser forte. Uma sensação de estar só, um medo da vida. Lembro que fiquei noites sem dormir, e dias sem comer.
Foi o que me foi dado a viver, eu não escolhi.
Logo depois Alfredo fez um aninho. Meu primeiro grande confronto com alegria e tristeza. Eu sorria sem vontade, e percebi o quanto envelheci com tudo que me aconteceu.
O Bruno partiu a quase três anos, e cabe muita coisa nesses três anos. Muitas vezes eu quis voltar naquele tempo bom, onde nossa preocupação era a Mate Cola gelada e fazer comida nas tampinhas de garrafa. Lá na roça de tio Zé nosso mundo era perfeito. Mas o tempo não volta. E a tragédia da minha vida trouxe a certeza de que é pra frente que precisamos olhar. Que o tempo cura, e o riso volta. A saudade fica. E você precisa fazer dela seu combustível para seguir seu caminho.
Se a vida te trouxe a morte, também te traz a vida.
Ana vai nascer, todo instante será vida de novo. A cada chorinho dela, a vida. Latente. Pulsante. Obrigando você a viver também.
É com essa lição que você vai encontrar seu novo ponto de partida. É preciso recomeçar de algum lugar.
Agradeça a Magela por ter transformado seu amor em gente: João e Ana. Duas grandes alegrias que só crescem e ficam cada dia mais bonitas, eles serão, para sempre, seu Magela perto de você.
Pode demorar um pouquinho ainda, mas um dia você vai voltar acreditar que tudo é bom, vai voltar a sentir vontade da vida, vai perceber que tudo pode ser melhor, mesmo não sendo exatamente como você sonhou. A vida se encarrega de trazer um sentido novo.
Muita luz e amor.
magela

Meu querido,

Sei que o dia em que ler essas cartas, você já será grande.
Mas para mim, sempre será meu Pequeno Grande Alfredo.
Desejo que tenha um amor lindo, uma casinha branca com janelas azuis, e uma roseira no quintal. Uma longa história, bordada de afinidades e leveza.
Que a paz seja textura e perfume de seus travesseiros. Em suas gavetas, além de saches de lavanda, muitas afirmações positivas.
Desejo que um passarinho sempre cante em sua cozinha. Mesmo que não o veja, que seu canto te alcance e alegre cada um de seus instantes.
Sua mesa, sempre posta de alegrias graúdas, da safra recente da colheita dos sonhos, plantadas pelas mãos de quem semeia o bem.
Que suas janelas estejam sempre abertas, e uma leve brisa balance as cortinas. Que o vento da esperança espalhe seu pólen de luz, e o raio de sol transmute cada sentimento em energia positiva.
Te desejo crianças correndo pelo quintal, você de mãos dadas á luz do sol de uma manha clarinha.
Que o Senhor te livre de tudo que for vazio de amor, e de quem não te quer bem.
E que os Deuses te mantenham longe de quem não possui nem um grão de imaginação.

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