Dia dos pais

– Mãe, aprendi a falar papai em inglês.
– É mesmo Alfredo?
– Sim, é daddy.
 
Espero em silêncio para ver se vem algo mais depois dessa descoberta. Você anda descobrindo tanta coisa, filho.
Pelo retrovisor te vejo treinando, mudo:
– Papai – Daddy. Daddy – Papai.
 
Passados alguns minutos, você solta uma de suas pérolas:
– Se a gente construísse uma máquina do tempo, eu ia poder encontrar meu pai, né, mãe?
 
Coração apertado de mãe, respondo:
– Ia sim, filho. Mas quer saber de uma coisa? Guarde bem seus desejos, aquilo com o qual a gente sonha não se perde, o tempo cuida dos nossos sonhos até o momento certo de realizá-los.

A gente se perde

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A gente se perde aos pouquinhos, se afastando de amizades verdadeiras, de amores que partem, de abraços apertados, de carinho de gente que te conhece de verdade. Acredite em mim, Alfredo, a gente se perde assim. Mas quando faz o caminho de volta, percebe que seu cantinho estava guardado na vida de cada um, que os braços continuavam estendidos, o colo pronto, o riso fácil e a casa segura. A gente se perde pra descobrir que, o que é verdadeiramente nosso está sempre nos esperando.
O que realmente importa e fica, é o que mais deixamos passar despercebido. A gente complica a simplicidade e vai ver ver a beleza do momento depois que passou. É difícil aprender a valorizar o que se tem, se presentear com um “presente” menos apressado, com um agora mais bonito. É difícil eternizar o outro, nós e o que se passa, pois quase nunca temos a atenção focada no que está acontecendo. Precisamos aprender a ser colecionadores de miniaturas, as miudezas se aconchegam melhor na memória. São elas que penduramos na parede do tempo e corremos pra ver quando “desaprendemos” a sorrir. Pequenos milagres que nos acontecem em um dia de grandes desafios. Abraço amigo, presente de irmão, coleção de vinil, raspa do angu da mamãe, anjo com cara lambuzada de picolé, lembranças fotografadas, bagunça de casa, coisinhas pequenas, de todos os dias, mas que fazem uma falta danada. Essas coisas são a cola que nos consertam quando estamos quebrados. São elas que ficam quando as pessoas partem e os momentos acabam. Quando começamos a guardar essas raridades pequeninas perdemos o medo da vida, descobrimos que lembranças também são companhia.

Sabe o que eu acho, Alfredo? que uma vida feliz é apenas uma sequência de momentos felizes. Mas algumas vezes não permitimos o momento feliz, por vivermos ocupados demais, tentando conseguir uma vida inteira feliz.
Sabe o que eu mais desejo? que você nunca se perca dessa alegria mágica, simples e bonita. Que seja você mesmo, sua própria fonte de felicidade. Que jamais esqueça a beleza ingênua de ver o mundo pelos olhos do Papai do Céu. Que continue sendo movido pelas novidades da vida. Que se sinta livre, sem medo de quebrar a rotina dos dias. Que se lembre o quanto é bom andar com pés descalços, deixando pegadas no vento, sem nenhuma pressa das horas. Que dê as mãos a quem caminha de acordo com a alma, se livrando do peso da matéria, experimentando a leveza de flutuarem num céu de estrelas.
Que você nunca se esqueça que é o menininho mais lindo do MEU mundo.

Para lembrar de não se esquecer

É isso meu filho, esses quatro anos com você, são os mesmos quatro anos sem seu pai. Morrer é sempre uma surpresa. Ninguém espera que vai morrer. Nunca se está pronto. Nunca é a hora. O fim da vida é uma porrada no peito de quem fica, mesmo para quem convive com doença por uma vida inteira.

Com seu pai não foi diferente. Nem preciso ficar lembrando o quanto foi inesperado. Ele se foi 20 dias antes de completar 36 anos. Jovem e moço demais. Deixando você, o menino que ele esperou tanto tempo, um bebezinho recém nascido.

Apesar da tristeza, sempre agradeci por vocês dois terem se encontrado nessa vida. Mesmo sem nenhuma lembrança, você  sempre terá uma foto com seu pai.

Se estivesse crescendo junto dele, certamente ia considera-lo um paizão divertido. Você até levaria broncas e ficaria de castigo,  mas sempre acompanhado de uma piadinha pra descontrair. Nossas discussões sempre acabavam em gargalhadas, e eu me sentindo uma palhaça, sem graça. Você teria que amar o mesmo time que ele (espero que ame, pois é o meu também). Ele sempre te daria um beijinho antes de dormir. Seu pai era carinhoso, impossível de esquecer. De tão vivo, ainda custo acreditar que ele não chegou a ter whatssap. Tomara que você tenha muita curiosidade,  ele era incrível e você precisa saber de cada história a seu respeito.

Eu e ele fazíamos grandes planos para o ano que vem. Comprar um AP maior, para você e mais um irmão(a) terem espaço à vontade. Viajar. Levar você em muitos lugares que adorávamos.

O ano que vem seria o máximo. Mas veio 28 de outubro, quase fim de 2011. E de repente, nosso ano que vem acabou antes de começar. Eu senti o golpe duro. Sofri por mim, sofri por ele, mas principalmente, sofri por você. Levei um tempo para conseguir chorar. Mas entendi que nada traria ele de volta. E não importava ele ter morrido, mas sim ter vivido. Dessa forma que eu quero que você entenda o que é a morte.

Você perdeu seu pai cedo demais, e não posso garantir quanto tempo estaremos juntos. Assusta pensar – também não sei quem vai partir primeiro, eu ou você? Mas não é isso que importa, acredite em mim. Importa como se viveu; o quanto se viveu; e o que se viveu.

Todo dia digo para se ocupar em ser feliz. Mas não é só para te lembrar – é para eu mesma não esquecer. Aquilo que você não lembra, não faz falta.  Você não perdeu, simplesmente nem sabe mais que existe. Como dinheiro que se acha no bolso da bermuda. E a felicidade é incrível demais para ser esquecida assim.

Você está lendo essa carta, está vivo. Trate de ser feliz, por mais que esteja triste. A partida do seu pai me ensinou muita coisa, e uma delas é não me importar muito com coisas que não importam tanto. A morte é uma dessas coisas filho, a gente se revolta em vão com a única certeza que se tem.

Nosso tempo de vida serve apenas para aprender a usá-lo construtivamente – vivendo feliz – e ele acaba quando não é mais útil para facilitar o aprendizado. Acaba para todo mundo, inevitavelmente.

Não importa a distância.  De lá ou de cá, a conexão entre quem se ama é eterna. Se ele pudesse, mandaria uma “Carta para Alfredo”, dizendo:

“Não seja bobo. Seja feliz. Te amo, meu menino”.

P.S: Último registro que fiz do seu pai vivo, dia 26/10/2011, fico muito feliz por ter sido com você.

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Sobre confiar

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Coitadinho do Pluto, tão ingênuo, corajoso e fiel ao Mickey, mas você achou melhor deixa-lo preso ao armário enquanto ia ao banheiro, vai que ele foge… Não é Alfredo?
Temos um longo caminho pela frente até você compreender o verdadeiro sentido de confiança.
Quando se confia filho, não é o perigo que vem quando se abre mão de defesas. É a segurança.
#meudiáriodegratidão