Cuidado.

Eu tenho tanto cuidado com essa palavra, na verdade, tenho medo mesmo. Medo de te dizer pra ter cuidado com tudo.
O mundo anda perigoso, filho.
- Cuidado Alfredo, não sobe na cadeira. Não solte minha mão. Não beba o suco tão depressa. Não coloque moeda na boca.
Preciso que você entenda: não queria recomendar tanto CUIDADO. Queria poucas certezas:
1) Que mal nenhum vingue.
2) Que risco nenhum te cerque.
Acredite em mim, sentia-me mais a vontade na vida quando minha mãe me censurava e me repreendia. Eu era só uma criança. O mundo era tão simples. Eu não tinha um coração contraído de mãe.
Você está crescendo.
E não é porque eu vejo e aponto mil motivos pra que você seja feliz e se mantenha distante de qualquer risco, que isso seja suficiente pra que você se sinta feliz e livre de qualquer situação perigosa. Tem dores e tragédias que a gente não enxerga, mas estão ali, dentro e perto de nós, prontos e certos para acontecer.
Tantas experiências te aguardam, meu filho. Torço pra que você aprenda muito por amor, antes que a dor venha te trazendo liçÕes, apontando o dedo na sua cara, soberana e convicta.
Se algum dia questionar o quanto te disse: – Cuidado.
Saiba de uma coisa: queria mesmo era poder guardar você numa caixinha de música, a sete chaves. Meu tesouro escondido do mundo.
Enquanto você dorme, eu afrouxo meu coração.
Sei bem que não tem nada que se possa fazer, quando a saudade de alguém aperta.
E seria difícil demais ter paz, com a falta de você.

eu e ele

Resiliência

Quando resmungarem perto de ti: “A vida é dura”.
Jamais questione, apenas pense: “Comparada a que?”
Cada um tem seu drama filho, difícil a tarefa de definir maior e menor grau de dificuldade de superação. Toda situação é efeito de uma causa, e a realidade é relativa e subjetiva.
Se resiliência é a arte de transformar toda energia do problema em uma solução criativa, te aconselho com convicção: seja conduzido por seus objetivos e não empurrado pelos seus problemas.
A vida retribui a confiança que deposita nela. A competência em insistir, persistir, resistir e nunca desistir é essencial. Erros também são formas de acertar. Acertar da próxima vez, aprender como se faz, e como não se deve fazer, principalmente.
Quando alguém sabe para onde ir, o mundo inteiro pára, para deixá-lo passar.
Jamais houve despertar de consciência sem dor. E ninguém se torna iluminado por sonhar com figuras de luz, mas sim ao ser submetido a um período de escuridao.
Adapte-se a qualquer situação meu filho, cada segundo é tempo para mudar tudo.

“Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.” José Saramago.
images

Faltou Bruno.

Num Fest Rock que não faltou Rock, pra mim faltou festa.
Muito bem organizado. O primeiro sem seu pai. E foi bom dividir com tanta gente a falta dele.
Eu olhava o palco e o céu. Uma mar de estrelas. Uma ponte de silêncio.
Estranho eu me lembrar disso no meio de uma festa filho: o dia em que olhei para o corpo do seu pai sem vida. Ele sempre fora a essência da alegria. Ali, a alegria não fazia mais sentido.
Acho que é por isso que gosto de lembrar dessa tristeza, para dar a alegria um sentido novo.
Nunca imaginei um Fest Rock sem ele. Durante um tempo a dor cantava um amor que não cabia mais em mim, e não percebia que a vida gritava forte. Vida que é falta e presença.
A partida do seu pai veio me ensinar que o tempo agora vale mais, é caro. Absolutamente necessário que cada segundo seja bom e simples.
Faz quase três anos, e você já é um menino.
Eu achava que essa dor nunca iria passar. Vieram outras. Outros sonhos. Novos desafios.
O silêncio deixado por ele no palco da vida, me deixou surda pra voz aguda da tristeza.
Foi assim que aprendi: As pessoas vão, a alegria fica.

P.S: Para seu pai:
Faltou sua voz de trombone cantando “Pretinha”. Faltou o som do seu pandeiro, das maracas, do apito, do triângulo, calados e guardados a tanto tempo. Faltou sua presença frenética correndo os quatro cantos do palco. Faltou você, Bruno.
Ainda bem que deu tempo de se reinventar. Alfredo tem a idade da sua falta. É sempre um prazer contar sua história pra ele: nosso milagre, meu delicioso desafio.
Todas as noites, acendemos uma estrela no céu pra você, amor que brilha. Para sempre.

cecular 018

Borboleta no remo

Foi então que o vento começou a soprar calmo feito brisa… Compreendi que a vida é isso: Uma canoa à deriva, nos resta disposição pra remar.
Por um tempo, pensei que a minha se chocaria numa rocha petrificada por tristezas e eu seria levada pela correnteza da desesperança, pro desfiladeiro da saudade.
Mas, preferi acreditar que a tempestade passaria um dia, eu reencontraria minha canoa reluzente sobre as águas calmas.
Agora, navego em pé dentro dela, gosto de apreciar a travessia. Gosto de forçar o remo e ver como é bonita a maneira como a vida vai deixando tudo para trás. Olho para as margens e vejo a lua nascer no mar bonito, vejo o sol mergulhar no horizonte.
De repente os dias parecem mais leves e fáceis, e o futuro menos pertubador.
De repente dá vontade de sair por aí só sendo feliz, desejando que todo mundo seja também. Isso é muito mais fácil.
Quando se espera com fé, acorda-se enxergando tudo com olhos de poesia, vendo beleza em todo canto, sorrindo por dentro, vendo cores onde antes era só cinza.
É paz de espírito, é vontade de fazer dar certo, é fé em Deus, em si mesmo e na vida.
De repente a gente respira fundo e percebe que as angústias desocuparam o nosso peito. E que tudo está se ajeitando outra vez.
É hora de parar de estraçalhar a alma em guerras para as quais nunca se teve armas para lutar.
Hora de ser soberano como uma borboleta almirante, guiando seu destino com a leveza do vento que sopra a seu favor.

image

Filosofia sobre o tempo, ou será sobre lembrança? Nem sei.

Acordo na madrugada. Pego você no colo, pesadinho viu? Levo pra fazer xixi, como meu pai fazia com a gente. Faço o barulhinho com a boca, você caído no meus braços, dormindo.
Abro a janela da varanda e ouço o mar quebrando as ondas. Um barulho silencioso.
Por alguns minutos, deixo meu coração tomando vento e soprando estrelas a cada batida.
Sempre peço a lua que te guarde num casulo, e te faça mais forte.
Numa dessas madrugadas, estômago revirado na boca da noite, foi que percebi que o tempo é igual o vento.
Eu sei, parece que passa lento, como o vento passa. E passando, passa. Quando vê-se só nos restam as lembranças.
Meu exercício preferido.
De tanto exercitar lembranças, elas viraram teimosia. Desisti de procurar os sentidos, achei melhor apenas vivê-los.
Lembranças são feito o sol: Uma estrela teimosa que queima. E arde. Em brasa.
Passam-se as noites e vem-se os dias.
-”Tudo está bem”. Essa é minha nova filosofia.
Parece-me que se a gente quer o arco-íris, tem que querer a chuva também.